
Café cultural e charutos
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Dois quartos e uma solidão

segunda-feira, 18 de abril de 2011
Agnes

Agnes ficou em mim como a natureza que reflito,e quanto de seu cheiro atravessou minhas linhas de sensações.Seus olhos eram bem amendoados e chispantes,de um dourado escuro perceptível,parecendo esconder um cômodo passado racional nas retinas.Que até já havia consumido ou tentado esquecer os seus erros em outras e tantas viagens, mas acabou logo desistindo, porque tudo era um quê repentino e ficou incompreensível,de acolher rapidamente algo, entender algo,saber tudo;porque tudo no fim era em vão.
Um colar branco e longo se permitia até o decote negro,traduzindo e crescendo o célebre desejo nas minhas observações,e se possível dizer em maiores detalhes, justificavam muito bem os seios que se guardavam na roupa.
Rodava seus anéis nas pequeninas mãos com grande gracejo e calmaria,após isso,de saber dominar calada a soma e seriedade de sua vida;ia andando pela casa,admirando as pequenas peças que se abrigavam na estante, nos livros que eu sempre mudava de posição.
Como num rompante mágico me virava o rosto com grande sorriso,depois outro virar de rosto com uma curiosidade sugerida,e ela mal sabia;mais este meu coração já latejava tão forte,vivia de origens desconexas,era qualquer dizer de frases ou conversas retratantes na madrugada,que tudo ali me serviria de matéria pra ganhar seus caprichos-(sim, o pequeno músculo que bombeia reconhece e sabe)-queria interagir seu rosto de passagens e entendimentos e desejos, e eu contava isso aos poucos,num sentido especial,sem coincidências,no lado sedento e indiferente de mim na cama.
E quantas noites a insônia já havia me perseguido,e ficava numa angústia de horas a contemplar seu rosto como ponte para o meu sono.Eu desmentia todas as minhas camadas de ansiedade pro destino;pros hinos,porque o que contava em questão eram seus braços,seus instantes,nos meus desvarios visitantes que agradava.
Porque haveria de tudo em agir assim,um senhor capricho crescendo e tramando as essências e que já não dava mais pra esconder nada,desinibir o cinismo apertado que me punha em risco.Naquele momento eu não sabia explicar bem o que se passava,só sei que eu era apenas uma pessoa presa aos seus encantamentos,de tentar eliminar a absoluta fusão da alma,de clarear meus campos de perguntas,de libertar-me daquela redoma o qual me fazia escudo.
E ela vinha com sua calma e presença,de tocar-me à vontade com suas finas mãos ,e no meio módico das despreocupações,pedia pra passar hidratante corporal nas suas costas,num tom risonho e às pressas'Bem devagar,tá?' 'O que é isso?' 'É strawberries and Champagne!' Então eu me erguia de seu pequeno travesseiro rosa e ia conhecendo os seus ombros desnudos,vasculhando a ponta dos dedos sobre sua nuca suada,enquanto que sua face baixava entre os cabelos e se permitia ao descanso.
'Espere!' levantou-se breve e sem tirar-me o olhar,despiu-se da longa camisola negra que escondia bem a existência madura.
Voltou aos poucos com seu sorriso de: acusações, acontecimentos e interesses, ficou a imaginar...Coisa marota escancarando o espírito.Encarou-me com os amendoados vivos;com a fronte desesperada na minha direção.Vertigens,encanto natural de criança,instantes...Joelho sobre joelho foi investindo na cama, até chegar bem perto,manifestando vocabulários neutros,vocabulários aflitos.
'Agora tente esse aqui!É frapê de limão!'E me passou o outro hidratante, ajeitando o cabelo marrom até tomar forma de um pequeno rabo de cavalo,enquanto que eu acenava afirmativamente com a cabeça.Abracei suas panturilhas(duas colunas de certezas)-os pés tão suaves,as nádegas ao acaso brilhosas,e ela se debatia,comprimia às intempéries do prazer com grande lucidez.
'Your song' tocava ao fundo quando pegou-me pelo braço e como numa pequena sinfonia disse que me queria bem dentro dela,de não dizer nada,só estender-me convulso na carne,na inclinação de sexo e fronteiras de êxtases,de morder-lhe o flanco,maltratar suas costas com os marfíneos quentes.
Agnes ultrapassava sempre as minhas respostas,porque tinha propósito máximo e desafios,Agnes consumia o meu composto de criança servil e não dormia sem o seu travesseiro rosa.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Entendimentos

Havia esquecido filhos,dizeres,jornais,cartas.Um verdadeiro e absoluto mestre da solidão.Ou quem saiba ainda estivesse esperando àquela melhor impressão de floreios lhe surgir um dia,mais que ainda não havia aparecido,como anúncio de emprego no domingo.
Ele Pensava nisso enquanto jogava sozinho o cavalo no tabuleiro, e foi caminhando seriamente sua existência até a varanda ventilada, obedecendo os seus miúdos olhos claros pro sexto andar.
Ali enfiado entre dois travesseiros de pena brancos,confrontaria o seu pai cansado que voltava de alguma cervejaria.E se alimentava das pequenas impressões que o jazz acontecia.Ora despertava dentro dele esta escrita agonizante da saudade,parte de um sentimento que deixou e que vinha agora com um sentido confuso e especial,um gosto de imaginar como seus filhos estariam...Que fora tão desfavorável como pai...A música vem chegando com uma naturalidade bem oferecida,conversa a gravidade do tempo presente,e seu pai ainda permanece ali;dormindo os mais lindos sonhos no reinado de uma cama.Já era mais do que tempo para reformular sua cabeça,de encontrar-se publicamente com a senhora do sexto andar e lhe lançar um sorriso melancólico de trinta anos,trinta anos que divisou e impacientou a fala.Toma um banho,passa colônia francesa no corpo,se olha no espelho demoradamente,penteia os finos cabelos com certo ar de confiança,molha o rosto paradoxal e pesado,fica tentando se entender na linha incompreensível do ser,assobia em notas altas na saída de casa.
Se desloca com cem mil frases até o outro prédio.O porteiro pergunta pelo nome,ele responde: nome e sobrenome,faz-se então uma breve pausa e a porta elétrica se abre.Toma o elevador,a chave tetra gira duas vezes na porta,uma diminuta senhora perplexa e emocionada abre.Ele fica naquela manobra condenável de pensar o que dizer,convida-se pra entrar.Amanhã, seu pequeno porta-retratos prateado à altura da cômoda,terá um rosto novo pra viver entendimentos.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Pendências

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Prato à minuta
Em certo momento deixei o carro cinza ali; bem perto do meio-fio no centro da cidade, e dividida por vários postes carcomidos e mal iluminados. O motor ainda ficaria ligado até o meu retorno,e eu teria que ser bem rápido,saltar como um gato e entregar o bilhete na portaria com grande fachada azul.Era um dia destes que chovia fortíssimo e logo mais tarde eu ficaria totalmente encharcado e emburrado com os contratempos dos pingos, o chapéu se perderia pros ventos estranhando a ideia de ser independente,desviando-se de prédios corpulentos e janelas degradês.
Na correria atropelava panfleteiros com seus videntes charlatões,mendigos pedintes com grande clemência condenatória,senhoras com seus redingotes bem vistos,cartazes e cartazes de políticos metidos em seus ternos italianos,transeuntes protegidos sobre as marquises largas,restaurantes com seus caríssimos clientes cheirando a sonetos.
Não tinha ideia do que viria depois dali,depois que o cheiro abafado da celulose do envelope saísse de minhas mãos e ganhasse outra,só saberia que uma lembrança ficaria aposentada na estante da sala e mais tarde pediria um prato à minuta...
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Qualquer mensagem, embora não houvesse mais possibilidades

Exposição na assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
Museu de Arte do Parlamento de São Paulo
Noite,23 de março de 1975,chove bastante neste verão.Os pingos que marcam o espelho d'água na calçada em pedra de cantaria,parecem moldar uma outra pessoa,um outro simbolismo coerente de mim.Àquele meu rosto que explode em círculos circuncêntricos perfeitos,na pequena poça marrom ovalada,reinando sobre os sacos de lixos orgânicos não sou eu, é um ser humano torto;mais enrugado e sem interesse que engaveta suas ruínas e pernas no apanhado de concreto.
Os meus pés decidem descansar sobre uma cadeira de madeira vermelha.No assento percebo pequenas lascas arrancadas com a ponta de um instrumento rudimentar.Eu não vejo nada em especial por esta madrugada calculista em que os bastidores dos olhos não velam nova histórias, não acham colinas gêmeas, não evidenciam aves de rapina assassinas sobrevoando as dunas temporãs, nem mesmo massa de pessoas sem assunto, conferindo seu dinheiro inseguro e aquela habitual conversa sobre o relacionamento.
Sim,neste provável labirinto eu aposentei o celular por dois dias,não que eu não quisesse entender certas ligações ou escutar a série de conselhos naturais que nos firmam na linha e questão de respeito/tempo,nada disso. Queria apenas adiantar e capturar meus elementos mais simples,os vestígios dos elos mais escondidos,certas coisas tácticas que a natureza suplica e não imaginamos porque a relação de fios e plasma é passaporte pra ignorância.A tecnologia muitas vezes roubou à nossa assistência de criatividades.A tecnologia nos deixa tão burros.E é por isso que o notebook vai cumprir com o mesmo papel,ficará também na mala do carro até segunda ordem.
A natureza me chama com uma intimidade decisiva,tenho vontade apenas de mar.
Foram estes mesmos tais dias em que o Old Parr serviu pra curar determinadas feridas,um xeque-mate no centro do meu coração.Todo mundo deve estar desesperado achando que algo aconteceu comigo e eu:(nem te ligo).Egoísmo da minha parte?Quem saiba!Talvez!Só não queria falar com ninguém,que respeitassem isso!
Ao menos eu deixei uma mensagem, como estes grandes suicidas clássicos que assim se perfazem:nada criticando a religiosidade ou as autoridades por seus temores, nada disso.Ali deve apenas existir uma linha clara,uma leve coerência ou vaga licença qualquer pros casos comuns.Ou nem isso;seria como os versos finais de Bandeira''A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.''
É engraçado e até demasiado tarde perguntar tanta coisa,bater com força na porta que emperrou e hoje não faço mais. Mateus estaria de folga esta tarde,ele conhece este meu amparo negativo,e sabe muito bem onde encontrar-me. Dali há quatro dias eu casaria e tinha que ponderar sobre todos aqueles motivos,mas já não queria mais casar-me,já não queria mais aquela companhia e suas declarações brancas.
Os meu pés são mapas de segurança, eles é que me guiam por :restaurantes, cidades mortas, bares mesquinhos que não servem a última dose,drogas possibilitadas,bandidos conspirativos,putas cheirosas,praças com bustos sem nome,janelas sem flores,pessoas mal informadas querendo conversar política.
Dobrei a calça azul,joguei os sapatos ao longe, agora eles decoram as pedras pontiagudas do morro.Meus pés sabiam e já diziam,por aquele corredor de igreja eu jamais passaria.Mas fui entender isso tarde demais.É que antes não havia nada sobrescrito,nada que explicasse esta desarrumação de juízo.
O cheiro que provavelmente atravessa o pequeno beco direito e que me assusta,tem cheiro de bolo de mármore; minha mãe sempre preparava esse bolo quando eu ia pra escola.Eu tinha doze anos e assistia Gato Félix,e nunca houve combinação melhor do que esta;bolo de mármore e café.
Todo mundo se reunia na grande mesa forrada com toalha xadrez, Flor naqueles tempos adorava amarrar suas tranças em firmes e grossos cipós loiros, e bradava em bom tom que já estava na mesa.Cynthia sempre gostava do bolo também.Eu conheci a Cynthia num concurso de desenho,era pra quem melhor desenhasse o Félix.Acabei aceitando o segundo lugar com os traços do bichano,e ela tirou em primeiro.Nossos pais eram vizinhos,e meu pai gostava de fazer novas amizades com churrasco no domingo.Já Dona Greta,fazia teatrinho de fantoches com sua filha e os amiguinhos preenchiam toda a sala.Aos poucos a família (dela/minha) foram se conhecendo melhor.Sim meu caro leitor;Cynthia é minha noiva,sei que devia ter feito comentários,confirmar algumas coisas e votos na sala de jantar;qualquer coisa que ela melhor me exigisse,mas nada foi feito.
Ainda posso sentir a sua moradia de pernas no convite da cama,ela que agora com toda certeza do mundo deve estar me reprovando por horas!Com aqueles cabelos presos sempre à nuca,ela sempre gostou dos cabelos assim!E depois não conversaria muita coisa ao tirar os sapatos, apenas lentamente deitaria e surpreenderia minhas costas informando os beijos pessoais,que havia chegado em casa e evidentemente não ia querer dormir naquele grande espaço de tempo!'Você nunca cresceu mesmo né, seu grande idiota,sabe como ficou todo mundo?!O meu pai diversas vezes fôra ao IML,e eu gastei o dedo ininterruptamente apertando o send(vaso voando sem hesitar confirmando a tarefa de acertar-me a cara)...' E o Mateus que não chega,que tamanha demora é essa e ele sabe que eu estou aqui,é só pensar um pouco,reflita!A pintura de Deus carimba a sua identidade nos meus cristalinos,e eu posso respeitar com tamanha maestria suas tantas possibilidades!Está bem ali,originando os seus trabalhos com pincéis,naquele azul vivo que se esconde por detrás das rochas, diante das procelas rebentantes que acorda o limiar das margens,e eu nos términos contemplativos fechando a concha da mão para escutar melhor as ondas.
Mais outros copos me chamarão nestes campos argilosos que friamente não quero ordens,e meramente o covarde se afogará em Thomas Parr.
Queria ser um pouco como minha mãe,nos seus trinta anos de relacionamento sempre viveu bem,gostava de bordar e a casa era um significado de quadros.Deixou-me apenas um relógio e um cordão azul que carrego no pescoço.Retiro uma pequena foto da carteira,ali com cortes retangulares bem grosseiros de tesoura de escola, me apresenta uma Cynthia com aparelho e um bonequinho na mão.A seriedade então me refreia tudo,até mesmo na beleza de Deus.Por que não disse nada?Eu não necessito de tempo para estudar meus papéis,nem sou personagem material que recusa trabalhos!
Vejo Mateus à distância,ao lado dele está Cynthia,Mateus não entendeu nada mesmo!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Ensaios dos cotidiano

Ela avança uma coluna jônica e mais outra,faz-me dobrar todo o juízo pro leste,na divisão das prateleiras azuis de fotografia.
E fica assim com sua procura mais que paciente,ressalvando a fina postura egoísta dos ombros,ganhando os nomes em dourado no dedo indicador, nos caprichos das capas e dos volumes,em autores,em linhas,acolhendo alheia os olhares num vasto inquérito,na verdadeira cadeia de saudades,e quando se vê; já está revisitando seus velhos amigos.
Quem me dera conseguir atingir os trinta passos para o território desconhecido e roubar a bandeira bem escondida debaixo das pedras.Eu quero lançar os dados,seis?Beleza,avanço seis.
Me perpasso pro canto de Noel,e já sei o que ele me diria:"Linda pequena,Pequena que tens a cor morena,Tu não tens pena de mim,Que vivo tonto com o teu olhar,Linda criança,Tu não me sais da lembrança,Meu coração não se cansa,De sempre e sempre te amar..."Jogue os dados.Perca sua vez.Não acredito.Mais quem é aquele?Ei,Vai embora! Tire suas mãos do ombro dela,não dê este sorriso mais debochado.É algum amigo somente e está conversando e nada mais,daqui a pouco ele vai embora.Ah!olha lá o que eu estou dizendo?Apoderou-se de dois livros e já está saindo,isso,faça isso,vá pra direção do balcão que agora você me deixa mais aliviado.
Jogue os dados.Avance três passos.Me deparo com a sessão de culinária.Dali posso arriscar sua alma enérgica,cercada por uma fina voz que examina os recortes negros e que termina num queixo triangular pequeno. E a boca coberta por um pequeno brilho, parece revelar uma longa comitiva sentenciosa,quase me tirando todo o conforto,tirando meu ponto de lição pra outra prateleira.
Eu vou chegar ali pedindo informações, ela com certeza me ajudará.Me direciono para sua seção com as mãos no bolso e a fronte um pouco caída,escutando seus estudos numa confusão sentimental que me declara leves impulsos.Pergunto:
'An,poderia me orientar em algo?Eu não conheço quase nada de fotografia.'Ela reina num sorriso com uma estatística quase de poesia. 'Eu também não conheço muita coisa,sou apenas uma curiosa' Descubro então mais tarde que ela não é fotógrafa como achava,mas sim uma escultora. E ela descobre que eu não sou chef,mas sim jornalista.No domingo tiraríamos fotos no jardim botânico...