
"A essência da natureza" por Douglas Okada
Exposição na assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
Museu de Arte do Parlamento de São Paulo
Noite,23 de março de 1975,chove bastante neste verão.Os pingos que marcam o espelho d'água na calçada em pedra de cantaria,parecem moldar uma outra pessoa,um outro simbolismo coerente de mim.Àquele meu rosto que explode em círculos circuncêntricos perfeitos,na pequena poça marrom ovalada,reinando sobre os sacos de lixos orgânicos não sou eu, é um ser humano torto;mais enrugado e sem interesse que engaveta suas ruínas e pernas no apanhado de concreto.
Os meus pés decidem descansar sobre uma cadeira de madeira vermelha.No assento percebo pequenas lascas arrancadas com a ponta de um instrumento rudimentar.Eu não vejo nada em especial por esta madrugada calculista em que os bastidores dos olhos não velam nova histórias, não acham colinas gêmeas, não evidenciam aves de rapina assassinas sobrevoando as dunas temporãs, nem mesmo massa de pessoas sem assunto, conferindo seu dinheiro inseguro e aquela habitual conversa sobre o relacionamento.
Sim,neste provável labirinto eu aposentei o celular por dois dias,não que eu não quisesse entender certas ligações ou escutar a série de conselhos naturais que nos firmam na linha e questão de respeito/tempo,nada disso. Queria apenas adiantar e capturar meus elementos mais simples,os vestígios dos elos mais escondidos,certas coisas tácticas que a natureza suplica e não imaginamos porque a relação de fios e plasma é passaporte pra ignorância.A tecnologia muitas vezes roubou à nossa assistência de criatividades.A tecnologia nos deixa tão burros.E é por isso que o notebook vai cumprir com o mesmo papel,ficará também na mala do carro até segunda ordem.
A natureza me chama com uma intimidade decisiva,tenho vontade apenas de mar.
Foram estes mesmos tais dias em que o Old Parr serviu pra curar determinadas feridas,um xeque-mate no centro do meu coração.Todo mundo deve estar desesperado achando que algo aconteceu comigo e eu:(nem te ligo).Egoísmo da minha parte?Quem saiba!Talvez!Só não queria falar com ninguém,que respeitassem isso!
Ao menos eu deixei uma mensagem, como estes grandes suicidas clássicos que assim se perfazem:nada criticando a religiosidade ou as autoridades por seus temores, nada disso.Ali deve apenas existir uma linha clara,uma leve coerência ou vaga licença qualquer pros casos comuns.Ou nem isso;seria como os versos finais de Bandeira''A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.''
É engraçado e até demasiado tarde perguntar tanta coisa,bater com força na porta que emperrou e hoje não faço mais. Mateus estaria de folga esta tarde,ele conhece este meu amparo negativo,e sabe muito bem onde encontrar-me. Dali há quatro dias eu casaria e tinha que ponderar sobre todos aqueles motivos,mas já não queria mais casar-me,já não queria mais aquela companhia e suas declarações brancas.
Os meu pés são mapas de segurança, eles é que me guiam por :restaurantes, cidades mortas, bares mesquinhos que não servem a última dose,drogas possibilitadas,bandidos conspirativos,putas cheirosas,praças com bustos sem nome,janelas sem flores,pessoas mal informadas querendo conversar política.
Dobrei a calça azul,joguei os sapatos ao longe, agora eles decoram as pedras pontiagudas do morro.Meus pés sabiam e já diziam,por aquele corredor de igreja eu jamais passaria.Mas fui entender isso tarde demais.É que antes não havia nada sobrescrito,nada que explicasse esta desarrumação de juízo.
O cheiro que provavelmente atravessa o pequeno beco direito e que me assusta,tem cheiro de bolo de mármore; minha mãe sempre preparava esse bolo quando eu ia pra escola.Eu tinha doze anos e assistia Gato Félix,e nunca houve combinação melhor do que esta;bolo de mármore e café.
Todo mundo se reunia na grande mesa forrada com toalha xadrez, Flor naqueles tempos adorava amarrar suas tranças em firmes e grossos cipós loiros, e bradava em bom tom que já estava na mesa.Cynthia sempre gostava do bolo também.Eu conheci a Cynthia num concurso de desenho,era pra quem melhor desenhasse o Félix.Acabei aceitando o segundo lugar com os traços do bichano,e ela tirou em primeiro.Nossos pais eram vizinhos,e meu pai gostava de fazer novas amizades com churrasco no domingo.Já Dona Greta,fazia teatrinho de fantoches com sua filha e os amiguinhos preenchiam toda a sala.Aos poucos a família (dela/minha) foram se conhecendo melhor.Sim meu caro leitor;Cynthia é minha noiva,sei que devia ter feito comentários,confirmar algumas coisas e votos na sala de jantar;qualquer coisa que ela melhor me exigisse,mas nada foi feito.
Ainda posso sentir a sua moradia de pernas no convite da cama,ela que agora com toda certeza do mundo deve estar me reprovando por horas!Com aqueles cabelos presos sempre à nuca,ela sempre gostou dos cabelos assim!E depois não conversaria muita coisa ao tirar os sapatos, apenas lentamente deitaria e surpreenderia minhas costas informando os beijos pessoais,que havia chegado em casa e evidentemente não ia querer dormir naquele grande espaço de tempo!'Você nunca cresceu mesmo né, seu grande idiota,sabe como ficou todo mundo?!O meu pai diversas vezes fôra ao IML,e eu gastei o dedo ininterruptamente apertando o send(vaso voando sem hesitar confirmando a tarefa de acertar-me a cara)...' E o Mateus que não chega,que tamanha demora é essa e ele sabe que eu estou aqui,é só pensar um pouco,reflita!A pintura de Deus carimba a sua identidade nos meus cristalinos,e eu posso respeitar com tamanha maestria suas tantas possibilidades!Está bem ali,originando os seus trabalhos com pincéis,naquele azul vivo que se esconde por detrás das rochas, diante das procelas rebentantes que acorda o limiar das margens,e eu nos términos contemplativos fechando a concha da mão para escutar melhor as ondas.
Mais outros copos me chamarão nestes campos argilosos que friamente não quero ordens,e meramente o covarde se afogará em Thomas Parr.
Queria ser um pouco como minha mãe,nos seus trinta anos de relacionamento sempre viveu bem,gostava de bordar e a casa era um significado de quadros.Deixou-me apenas um relógio e um cordão azul que carrego no pescoço.Retiro uma pequena foto da carteira,ali com cortes retangulares bem grosseiros de tesoura de escola, me apresenta uma Cynthia com aparelho e um bonequinho na mão.A seriedade então me refreia tudo,até mesmo na beleza de Deus.Por que não disse nada?Eu não necessito de tempo para estudar meus papéis,nem sou personagem material que recusa trabalhos!
Vejo Mateus à distância,ao lado dele está Cynthia,Mateus não entendeu nada mesmo!