quinta-feira, 24 de julho de 2014

Não possuía mais medos nestas circunstâncias de sua vida...Quarenta primaveras nas costas em que carregava muitos cigarros e vinganças,e sabia reconhecer muito bem tudo isso, riscando com a faca na madeira,as suas várias críticas para as mortes.
Eram,por mais que não se permitisse,propaladas as suas histórias pelas serras extensivas e cerradas,onde o seu nome ganhava respeito com o sacolejamento do uísque em conversa de bar,entre conversas sérias e desconfianças;ninguém fazia ali,o mínimo papel de bobo,instituir paletó de madeira não agradava ninguém.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Maria Isabel



Havia uma insistência nele de importar-se com os pequenos olhares,caminhando rotineiramente as retinas sobre as janelas vermelhas envelhecidas com algumas estrelinhas douradas graúdas,onde as paredes da sala fria eram agredidas de maneira intermitente,pelo madeiro no vento que não descansava.
Na esquina onde uma senhorinha passeava com seu beagle energético,ficava com o pensamento distante,sofrível,talvez disciplinando com o que guardara das ruas estreitas,no interesse da voz que não desistia nunca o coração,algo prolongado por décadas e que lhe embaraçava estranhamente o peito.
Uma vontade mais forte e cheia,criando inúmeros preparativos,convites,marcando o armazém Melchior & Cavalcante,o pintor sensibilizado que descobria um novo rosto rosáceo,a padaria de que dava fila, os postes que beiravam luz nas conversas dos mendigos,os esgotos repentinos e fétidos construídos nas chuvas de julho, os zéfiros inconstantes que costuravam folhas amarelas caídas das árvores do centro.
E se acertasse hoje o caminho da canção fina e saltitante,da pequena casa que abraçava os abacateiros e sua madureza de frutos ,onde corresponderia os ouvidos influenciados ganhando suas horas na praça cheia,nos aplausos em casa com ingresso VIP,onde ele era muitos ouvidos e risadas isoladas por ela.
Ele que sabia melhor transmitir os seus choros cuidadosos pra casa azul onde crescia os seus sonhos encolhidos.
E Maria Isabel  quase todos os dias atravessava as mãos na cortina de seda com certo capricho.Onde os dedos trêmulos e suados descobriam a cidade e a brincadeira das meninas no pula corda,na avenida principal.
Perto de seu Luiz,um polaco que perdera um Banco e hoje vendia perfumes numa pequena banquinha exposta rente às margaridas vistosas e letras graúdas indicando os preços.
Pelos beatos passantes e chatíssimos com cheiro de ervas ainda constrangendo pessoas com discursos duros e apocalíticos.
O tecido branco corria com certa pressa,recolhendo-se aos poucos no canto direito onde repousava os livros da estante;para que visivelmente o sol manifestasse o seu calor egoísta nas costas do sofá marrom e nas folhas ordenadas sobre a mesa baixinha de jacarandá.
Maria Isabel gostava de cantar com largas escalas,e deixava um pequeno lacinho envolta à camisa branca,eram duas voltas bem trabalhadas no pescoço frágil.
Os pés  guarnecidos em saltos escarlates e os quadris vestindo uma média saia lilás plissada onde terminava pano nos joelhos e abria grande destaque para as pernas bronzeadas.
Quase todas as sextas-feiras saía às pressas,como um devoto atrasado adentrando embarafustante a procissão religiosa.
Na sexta-feira que se ia tinha que 
vê-la de qualquer jeito às seis,correndo veloz e desviando-se das poças como um menino arteiro.
Saía do bar do Aristides ajeitando os cabelos esvoaçantes com as mãos espalmadas,e ofegava a cada minuto pelos passos que ficava a dever;os passos cada vez mais pesados,brutos.
Os minutos sujeitavam qualquer atenção presa e tensa para os pés,os minutos poderiam ser longos demais e sabia.
Só Maria Isabel não suspeitava de nada.
E a sua voz era como um trovão bem agudo e cintilante ganhando vida pelos nomes de rua,abrindo encantos  e sonoridade ao coração,uma medalha após corrida,algo que ia pra plateia de um homem só que vigiava a janela portuguesa e esperava o findar do espetáculo para os aplausos.
Nada melhor responderia seu timbre de soprano,vinha daquele raro instante da tarde,e somente ele conseguia diferenciar e conversar bem os seus monólogos,por ela.
Os frequentadores do bar do Aristides já o conhecia de muitos carnavais,entre risadas e outros motivos jocosos,Aristides e os demais conversavam a respeito;tentando achar as inúmeras explicações pra tanto fanatismo do moço.
E ele nem se preocupava com isso,só se importava com o relógio e a admiração transparente que tinha pela loura do Coral.
Pelo pequeno corpo que via ao longe ensaiando e lhe convidando para outras estações.
Sentado agora com a camisa aberta no banco,tratava de beber da pequena garrafa e beijar um cordão feito de couro e topázio,a única coisa que a mãe deixara e que acreditava ser um amuleto de grande sorte.
Maria  andava de um lado para o outro observando o espelho,preocupada com o treinamento severo,imaginando as notas certas e a sua delicadeza.
E o castigo parecia presenteá-lo com os seus limites,bem de pertinho,sem avisar;ou não seria nada disso,seria coisa da sua cabeça? Talvez se passasse algo dispersivo,um prazer sereno e existencial?!
Ele mesmo nem sabia o que dizer,seria mesmo algo,assim? O que seria certo e o que seria,errado?Na ideia de pensar nela?E somente nela?
Esperar horas e horas por aquela única sensibilidade que lhe invadia e reconhecia as bobagens de estar, apaixonado?Num banco de praça? Tentava evidenciar tais curiosidades,porque nunca se achara em nada interessante e Maria estava tão distante,e tão distante...
As palmeiras balançavam diferentes e seu sorriso vinha conjuntamente sem perceber,entender a sua realidade que se perdia sem ao menos poder falar nada,sem nada de transmitir suas expressões e reflexão,tudo isso parecia lhe doer muito.
O mistério se guardava por detrás da porta e assumia esta vitrine todos os dias,e quando chegava o dia para cumprir a sua força,cumpria muito bem a sua promessa sem maiores dizeres pra quem quisesse escutar.
E compreendia a beleza que crescia tão amável,vinha em grande parte dos refrões que preenchiam sua alma feito uma andorinha cruzando céus certíssimos,vinha da Maria que lhe devolvia as vontades e o aprendizado acreditado no agudo.
Ajeitava os cabelos molhados e coçava a pouca barba,bebericava lento enquanto que os pombos pousavam perto de seus pés no concreto duro e quentíssimo.
Fica lembrando da primeira vez que viu Maria,e que fora um grande espanto imaginar tanta coisa em tão pouco tempo.Foi na igreja num domingo cinzento e que a impotência das pernas fizera muito efeito,queria tanto levantar e cumprimentar aquela mulher,fazer a diplomacia ser grandiosa e especial,porém;o que existiu apenas foi o latejamento do peito,e alguns pensamentos futuros e incertos.
Era um dia que queria esquecer o passado,furtar-se de certas lembranças,só que a imagem da mãe ainda estava muito presente,havia riscado na folha o oitavo dia de sua ausência.
Maria tinha percebido vagamente a presença,percorrendo as paredes douradas e os santos pousados em seus pedestais.Os cabelos volumosos e a face triste bem à sua frente lhe chamaram a atenção.
E a única arma que possuía era um palavreado preso que ameaçava prevalecer,e só ameaçava no fundo;nada mais.
E Rita acompanhava as amigas no andamento da música e nas risadas curtas,no medo de que saíssem da entonação musical.
Brincavam,beliscavam,entendiam,
deixavam acontecer a conversa silenciosa que pairava naquele lugar entre os dois.
Com os movimentos estáticos e após o coral;
permitiu que ela fosse embora,não sem antes lhe contar confidente e através de um bilhete esverdeado, os seus grandes poréns e sinais atarracados de paixão.
Entregou nas mãos de Lia que entendera o recado,ainda com a fronte baixa,no momento em que passava pelo genuflexório rapidamente e ia ao encontro da amiga.
Na saída,sua tia ia ao lado,
alisando-lhe o braço e contando os causos surgidos dos vizinhos,enquanto que Lia lhe entregava macilenta o papelzinho nas mãos e sorriso nos lábios,de maneira bem disfarçada sem que a tia percebesse nada.
No início achou um grande absurdo,ousadia gratuita de tentar a todo custo uma primeira conversa sem ter porquê,e em segundo porque desconhecia as fronteiras daquele homem que soprava mundos tão desconhecidos para suas noites acordadas.
Maria também queria soprar mundos de volta,queria esvaecer suas agonias que não tinham direções,alguém pra lhe firmar novas trilhas,seria ele?Pensava com a cidadela à mostra e com as miríades que abrilhantavam  montes tortuosos.
E então,os demais dias esperaram qualquer coisa de respostas,que não vieram até ali;a insistência e a sequência de pular aquelas etapas traçava muito bem a sua resistência supervalorizada,conversar com a Lia sobre o turbilhão de ansiedades que reinava no seu corpo,ganharia mesmo algo de tempo?Seria isso mesmo?
Porque ainda poderia desabafar outras mensagens que não saíam de sua cabeça,aliviar uma sequência de dilemas,sim,as vontades interessantes cresciam e decidiam o verdadeiro sentido da madrugada.
Seja o que fosse,queria naquele momento qualquer resposta de Maria,mesmo que fosse um não cruelmente aceito e lhe percorrendo veias.
Era inevitável então desconhecer a vontade interna,inevitável desconhecer aquelas pernas que caminhavam impúberes até a casa azul,e reproduzir todo gracejo que lhe passeava nos ouvidos.
Por muitas sextas-feiras Maria Isabel cantou sem que soubesse dos caprichos de quem lhe habitava tão querido.
E era ali acobertado de inquietações que ficava,entre um gole e outro,sem tirar o espírito parvo do banco,pensando na menina tão breve que ensaiava suas divagações.
E a chuva ia tomando os sobrados e  seus enigmas intransponíveis,caindo de maneira perdida sobre seus ombros frágeis,lavando os olhares arrastados,pesando os fios sobre o rosto suado,lhe refrescando levemente a pele seca.
Aguardava tudo em circunstâncias indefinidas, numa espécie de viagem estranha,bem calmo,tímido e com muitas flores apresentáveis.
Ainda que não fizesse sentido nenhum,ele ficaria ali, mesmo que lhe chamassem de bobo,ele ainda assim ficaria ali,só que de bobo ele não tinha nada e nem era.
Maria voltava o rosto para sua tia Mirtes,que profundamente solfejava novos procedimentos para o acerto musical.
Conseguia enumerar os trechos com impecável atenção,através dos óculos redondos de acrílico que pousavam no meio do nariz adunco.
Pedia que se expressasse devagar,com elegância,afinal de contas;não era qualquer voz nauseada que se arrastava pelo salão branco.
E ela então tocava sua  garganta cansada,ajeitava o laço de maneira terna e gentil,no bolso ainda ficava o pedido do estranho,alimentando um novo começo a se cumprir.
E como deixaria: a sua tia,e a pequena cidade,e o coral?
Como se desviar de tudo ao redor?Ficava por vezes muito nervosa,convencida de que aquele devaneio todo era apresentado como uma grande máscara perturbadora aos seus entendimentos pequenos.
Pela janela conseguia identificar as águas que compareciam com certo refrigério,e Rita então pôde perceber o vulto que se escondia atrás da barba e das palmeiras novas.
Era um velho monarca que não sabia e não entendia do seu reino.
As flores tinham um cheiro diferente e ele se sentia isolado,a chuva dançava e invadia os seus poros e o seu corpo esguio.Era uma espera doce,compreendida e reservada que explicava tudo.
E Maria lhe chamava de alguma  forma,lhe consumia,lhe espelhava o desejo.
Foi saindo aos poucos,com os saltos enterrando-se na gramínea curta,as pernas quase lhe provocando uma queda desordenada,o andar indo mais acelerado;e ele percebendo a cena pulou do banco num ímpeto extremo,jogou os pés bem pra frente,seguindo também apressado,bem atrás das duas.
A tia estranhando o homem desconhecido comentava o fato aos ouvidos,sussurrante.
Certa hora cansada,bradou 'Sai tarado do Aristides!Tarado do Aristides!' para ver se acabava com toda aquela palhaçada de perseguição.
Ele observava tudo ao redor,os velhos imóveis,árvores e os transeuntes distraídos que proseavam,não ficara com medo da voz,não,pelo contrário;continuou sua firmeza nos pés,sabia que a velha detestava o Aristides e as piadinhas de balcão no bar,sabia que o detestava.
Falou alto então,tentando chamar a atenção de alguma forma,disse algumas besteiras,já sabia que o 'não encontro' estava consumado e ia encerrar-se de outra forma
'Maria,preciso falar com você!Eu preciso falar com você!'
'Você não vai falar com esse troglodita,ouviu Maria?Quem ele pensa que é?Lhe procurando assim,perseguindo você?'
O andar agora ficava mais atrapalhado,e fôra possível surgir uma harmonia desconhecida que conversava,Maria tentava alinhar-se ao seu raciocínio,ao seu quebra-cabeças inacabado.
'Maria,o meu recado é verdadeiro,são tudo caminhos!Maria, podemos fazer tudo diferente!'
E foi arrancando o laço do colarinho que apertava,no seu silêncio imediatista,oportuno,lembrando de cada linha e dos acertos semelhantes de ambos,queria fumar um cigarro ali e sabia que a tia odiava cigarros,queria
falar-lhe a sua natureza,o bem-estar das linhas que sacudiram suas ideias como uma luva.
Enfim parou,mesmo que a força da tia ainda operasse qualquer seguimento,já sabia o que queria,não tinha como voltar atrás.
Deu um beijo na Mirtes e tirou os sapatos,foi correndo ao seu  encontro sem nenhuma demora,com aquela nuvens de promessas consumindo novas campanhas, debaixo da chuva,com o cheiro de flores irmãs,por que não?


sábado, 16 de novembro de 2013

Vinho

O vinho ainda se encontrava na mesa portuguesa de cedro,com uma tonalidade rubi escura intensa,ao lado das flores  vermelhas que murchavam vagarosamente e dos retratos antigos de família.
Márcia deixara a bebida  ali com um possível  significado,porém,qual significado?Sim eu falo da estranheza  e com várias ressalvas na mente,porque eu já não estava mais com a Márcia,só que ainda dispunha  a chave de casa.
Não existia bilhete ou cartão com dizeres afáveis,apenas o vinho italiano,nada mais.
Preparei o café e passei manteiga em dois pães ,sorvia a cafeína com um jeito distraído,distante,procurei algo na secretária eletrônica,em vão.
Telefonar não seria uma saída interessante,ela mudava de celular como alguém que renova o armário de seis portas,e muito menos era adepta de redes sociais.
A sorte talvez surgisse com um email antigo, que havia deixado no bloco de notas preto,na mesinha de cabeceira do quarto.
Lembro que estava apressadíssima pra um voo, e que qualquer emergência responderia por ali mesmo, anotou ainda alguns telefones comerciais,a ração  certa pro gato e o  número do chaveiro,a chave para o meu azar havia quebrado nesse domingo.
Ligando e ligando,número indisponível,ela havia mudado o celular.Ligar para mãe?Não,só me traria sermões desnecessários.
Os cigarros acabaram,assim como o amor,e comprar às duas da manhã não tem graça nenhuma.
Abro o vinho tentando achar alguma revelação diante do papel de parede adamascado.
Beberico rememorando os pequenos episódios e paladar.
Procuro roupas, dentro,encontro um terno azul escuro comprado no Mercado das pulgas.
O meu pensamento agitado,cogita enormemente  e claro  por estes dias, algo que faz-me enxergar um outro paralelo para o relacionamento,eu nunca pensei em trocar a fechadura da porta.
Talvez este seja o sinal,a resposta em tese,talvez eu encontre a Márcia,talvez eu responda com uma contraproposta de vinho.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

(Horas vazias)


Nesse momento quando dei conta de mim,ainda exibia um certo sono,um clima tristíssimo invadindo minhas veias e peito,e que me remetia lançar os olhares e gestos vagos no decorrer das horas com grande lucidez,eu me sentia ilhado tentando compreender os seus entendimentos e apelos,tentando entender o meu rosto desconhecido e cansado.Abri então a pequena janela branca que dava pros fundos do prédio e onde ocorria a tradicional feira de
segunda-feira,mariscos era a atração principal do dia.
Acordara naquela manhã com meus fantasmas bem apresentáveis,descortinando sem mistérios cada atitude esquiva de levar o propósito da ligação mais à frente.Olhei em volta e tudo que via era apenas o telefone preto à espera,uma ou duas ligações quem saiba,em vez de esperar esse tremendo silêncio que seguia,tudo turbilhonando cedo na minha cabeça solitária,uma confusão de histórias e medo de perder seus sorrisos.
Examinei a carteira e ainda existia uma foto 3x4 dela, com os cabelos bem longos e negros,a boca ainda bem perdurante.
Eu nunca mais tivera contato desde aquela fatídica chuva,e este tempo incerto me carregando para tantas leituras,era uma fuga,um elemento castrador que alimentava o golpe da ausência.Vários livros espalhados e participativos pela cama,um cinzeiro vermelho e a antemanhã de frases que ainda me perturbava todo o pensamento.
A penumbra ganhando os quadros no quarto e que foi palco de tantas encenações de amor.Era a solidão do dia chegando mais intermitente,no interesse de ressentir os meus erros,de encontrar a minha cidade,acertar-me com o gosto de
vê-la novamente.
Rever este pouco que ainda me cabe nos ponteiros mortos,quando o cigarro alcançava apartamentos e o corpo apreendido por imagens e mundo supreendia,de tê-lo sido bem instantâneo e mágico,quando as risadas combinantes dominavam o espaço dos travesseiros.
A feira dava nova condição para rua larga onde os feirantes gritavam seus produtos,os carros passavam com certo cuidado e buzinas,e as pessoas maquinalmente despertas naquela alvorada, escolhiam frutas maduras para os filhos.
Eu mais ali adiante fiquei com as minhas dúvidas merecidas,faria ou não faria aquela ligação,ela receberia de antemão os meus pedidos de desculpas ou não...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O som do piano perdido


As ruas mal iluminadas contrastavam com a sobriedade das paredes cinzas da rua.
Cartazes de velhos shows ganhavam destaque com seus tons chamativos e escarlates,as letras garrafais assumiam  suas linhas sobre o espaço do muro até a esquina onde ficava um velho bar conhecido da praça.
Na ausência em que se sucedia os meus pensamentos presos,algumas passagens ainda teimavam durar sobre os desterros recentes e a minha vontade de acender novos critérios era diário,como regar plantas na varanda com um cuidado extremo.
As retinas semi-abertas ganhavam o horizonte estranho,e a psicologia defasada do silêncio ardia incessantemente,tudo era um descontrole, uma tempestade involuntária de sentimentos rondando todo meu corpo.
O som do piano ainda acontecia e os dedos derradeiros se distraíam levemente nas teclas,era uma revisitação gostosa que se proporcionava aos ouvidos,quando a música distanciava a tarde e o relógio, e o convite de seu rosto registrava  ainda uma tentação de
tê-la de volta.
Os pés andarilhos e maltratados ainda era cercados de histórias e casas,arredores que passeou e observou de longe com certa saudade conhecida,madrugada de sábado chegando e parecia que o som ainda ganhava as velhas formas pela janela,espalhando suas notas por árvores e cercanias calmas de ventos.
Não que eu não tentasse sequer uma voz,paulatinamente embrutecido pela tristeza  e padecimentos constantes,nada disso,eu tinha uma confiança que nunca se apagava,de levar sempre envelopes e deixá-los no correio da casa,e não hesitava em momento algum  passar as linhas insatisfeitas pelas horas na sala,lembrando o piano,o cuidado que possuía ao virar as páginas,a serenidade sem-conta passeando pelas curvas dos corredores e a alma à espreita assumindo esta imobilidade,seu rosto tomando outra cor  e os braços dissidentes recapitulando as notas,entendendo as ações,era um rosto angelical em meio ao suor que brotava da testa.
E o puro pretexto de saber e tentar buscar novamente seus braços,fazia com que a caneta fosse um alicerce.
Uma alavanca destemida a abrir portas,uma saída que se punha na folha de papel.
Amanhã eu faria a passagem de novo,talvez tivesse a sorte de escutá-la naquele domingo movimentado com feira,amanhã eu poderia entregar meus sentimentos à porta.

sábado, 20 de abril de 2013

Condenação oportunista



Ora se via debruçado e bem calmo sobre o balcão,não limpara os óculos e se empertigava pouco pela guisa de consolo que o retrato exclamativo sobre a mesa transportava em inúmeras vontades,sabia que a saudade lhe invadia noites tremendamente cansadas e rascunhou perdões não ensaiados no cérebro curvando a cabeça provavelmente pro quinto andar do prédio em que esganiçava mudo o rematado ogro particular que vivia'talvez não saia para regar as plantas'disse em voz baixinha!Finais de semana apresentando-se tão negativos,nem mesmo seu canivete jurava uma imagem impassível golpeando o cedro com traços cirúrgicos precisos e curiosos,uma natureza de linhas secamente escritas e que relatava pelas esprimidas letras a esperança da serventia da boca viver novamente morada.
Olhou o relógio intrigado pelo que a vaidade queria,as luzes todas estavam apagadas e a única chama que resplandecia sobre seus olhos era um fósforo descoberto ao acaso no bolso da camisa cinza,queria ainda ter motivos para viajar à Paris ou matar de uma vez o uísque empoeirado que morria penalizadíssimo entre o veredito de Camões e grossos volumes de Quixote,já era um próprio descuido em ter tantas invencionices e tantas impressões tiradas pra compra de feira que nunca fez,o papel relatando incômodos valores na geladeira branca e nunca guardou qualquer semana pra arrancar este peso de consciência e ir pras ruas,quem saiba ter a chance mínima de encontrá-la com aquele vestido rosa que conhecia bem ao vê-la na praça comprando lírios ,praticamente descoberta de pieguices de pessoas que falam mal ou contentar-se com seus cabelos escovados num chapéu bem sugerido,uma gargalhada espontânea e entusiasmada chamando o taxista e pedindo mais tarde ajuda pra levar as compras.
Não queria mais ficar esperando aquela loucura de olhar por debaixo da porta pra perceber se havia algum recado,uma carta de amor,queria mesmo era acertar uma nova folha pras teclas e preparar uma história que agradasse,que rompesse a condenação oportunista que nunca quis causar e deixar de tamborilar as várias perguntas leiloadas sobre o esquecimento neutro.Aproximar às narinas pra tinta,tentar entender porque as máquinas de escrever estão morrendo em larga escala,imperceptíveis senhoras que venceram séculos e hoje se aposentam em decorações de salas íngremes.
Era um chamariz desconcertante observar a pálida janela descascada,absolutamente preenchida de vasos e verde e nada mais restringia a ordem dos excessos e o que era difícil não era a espera,era o frio ao redor e as teorias cochilando sobre as estantes,sobre os acordos do medos que não respeitavam calendários e coração.Havia escrito várias páginas que nunca viraram cartas e três rasgadas que arriscou xingamentos e curioso que imaginava ou tinha mera suposição de como ela tocaria àquelas plantas,acreditando ser uma nova criança e inventando frases afogueando pétalas e raízes respondendo bem por seus crescimentos,as mãos bem sinceras socorrendo os minúsculos galhos,assim sabendo o rosto e nada hesitando em acompanhar com destreza o mesmo embalo.
Examinava fio a fio e interrogava-se moralmente dizendo que a cada dia mais parecia com seu pai,o que nunca quereria abrigar tamanha incumbência já que era plausível a reposta e relação de dois planetas tão diferenciáveis.
Porém morava uma estação de orgulho com sua própria chave escapando pelos poros e mais tarde apressando a ideia de que a solidão fazia refeições diárias ali,bem presente e incitando seu espírito.
Cadê seus prováveis braços informando canções e mencionando que o café estava definitivamente bom? E suspeitando o próximo filme a ser assistido e porque não sai logo e examina a janela,não deixe acabar todas estas cigarrilhas apanhadas e cartas que esperam pela sua gentileza,forçar um confessar fatalmente rasgado sobre minhas olheiras e súplicas.
Por que não compreende?Vai molhar as plantinhas,enquanto fico seguido de minhas teclas provocando um estranho estalo nada combinativo pela musicalidade maquinal,entregando ao porteiro meu corpo na pasta e observando o quinto andar sem coisíssima alguma de abrir a loja,ainda é muito cedo e eu ainda quero uma visita,perceber teu leve acenar sem pressa entre as samambaias,não quero pensar que amassou outra carta,quero deixar tudo bem apurado como álbum de família.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Giuliana

  
E observava a casa velha entre os abacateiros magros e descascados,casa velha que administrava os sonhos impotentes desde criança,no fim da pequena estrada de barro e pedras,na fatalidade do obscurecido sol que morria atrás do moinho,e que compreendia uma fachada branca com desenhos abordando naturezas primitivas e um entalhe indiano com folhas frondosas assumindo colunas,e que moderamente abria linha circular até atingir a porta de entrada cortada em ripas.
Vestia regata branca e azul índigo,cabelos molhados que exploravam os ombros curtos,duas argolas prateadas na orelha,alguns discos de rock progressivo debaixo do braço e três cigarros no bolso direito.
Os olhos perdidos,cegos,mediante os vitrais escarlates que reinavam sobre os cantos da sala e sofás,a foto da namorada que continuamente causava reconstrução pro seu estar no mundo,uma impertinente sensação que lhe cobria o sossego do corpo,a arrumação dos móveis à antiga que ainda guardava da mãe;ali,naquele ponto incomum em que discorria suas ideias,sentou sobre o carpete felpudo e deixou a agulha estender-se pelas janelas retangulares,atingindo o orquidário caseiro,a mesa de jacarandá com fruteira e dois vasos de louça que a prima havia trazido de Belo horizonte,invadia as cores de Monet e Renoir,das botas e chinelos,dos livros espalhados pela estante e o cheiro de grama molhada após chuva.
As sofísticas frases que alimentavam a espinha dorsal e que apelava pra uma espécie de estranha tristeza, carregando na carne e assumindo um andar desenfreante e torto até a vitrina,correndo contra sua nuvenzinha de horrores e retirando dali uma agenda com capa de alumínio arranhada.Alguns cartões antigos,páginas depenadas sobre o qual a mão folheou à convite do passado sem razões,alguns dizeres escuros proferidos,corações pintados e ordenados nos números de datas,nomes riscados,baralho de frases,seta indicada com a palavra 'medo' na letra C.
Não obstante conversava com seus sorrisos sem respostas,em cada página e em cada lembrar perdido;um rejuvenescimento contínuo,declarado,exercitante, tudo certo na espinha dorsal que pedia flexibilidade e limpidez.
Foi em setembro de 1968,gravata borboleta tirada da gaveta pra uso no catecismo,do cheiro particular do Bobó de camarão de Dona Zinha que mexia com perpetração leve,cozinhando a mandioca no leite de coco e mais tarde sendo levado pro liquidificador,amarrava um guelê branco farto e penduricalhos de penas com cores vivas,cheiro bom que me falta ao estômago até hoje de Dona Zinha,depois o bolo de macaxeira ralada crua e a tapioca servida com café encorpado na mesa xadrez,trazia o bule fumegando e xícaras douradas,naquele verão de arder terra eu ia ao catequismo e furtava terrivelmente cajus do Dr.Mauro com Biné,perto de onde o sr. Nicolau com sua fastidiosa tarefa, arrebentava madeira pra juntar lenha e eu descobria o mundo pela fechadura do quarto de hóspedes, magnético.Era a mistura do profano e religioso,coisas que resgatavam a pequena agenda e música,desejos uniformes,desejos coibidos e virgens que selava meus teatros, comicamente.
Eu já passava para o terceiro disco e mais algumas páginas,como pôde ter ficado ali;por tantas e tantas passagens e eu nem sonhar em
tocá-lo?
Desacertos,estações,domingos,
estudos,derrotas,condenações,
postais,musicais,namoros,
telefonemas,fotos,fotos e fotos e eu tentava sequenciar o campo de infantaria dos atrasos,e analisava a agenda em entender suas empalidecidas folhas e seus sábados e seus casos, e eu nada de saber dizer,nada de melhor definir o demasiado descaso de jogá-lo de lado.
Porque tantos maltratos barulhentos rodeando os passeios,vozes altas arranhando os ouvidos,e linhas irresponsáveis que foram crescendo no somar dos anos,o mundo não lhe pertenceu,chegou tarde pra entender os comportamentos,as frustrações,o longínquo parecer da sabedoria.
E agora são outras águas que descem sobre sua cabeça,sobre os telhados de louça onde esconde a Monark laranja aposentada na garagem.
Das aventuras cortando o riacho da mijada da velha,sinuoso leito em que atirava pedras e confessava segredos pros Umbuzeiros afastados,por que tentar agradar e nunca vir uma resposta de consolo?De tentar ser amado,tentar ajudar,ser interessante?
Ainda dava tempo de chamar a Giuliana,esperar a sua companhia avançar e tomar os severos acertos e pegar a Monark e subir os terrenos ajardinados com ela,desfazer aquela atmosfera cinzenta e a música então girar como passista de escola de samba,e o torrencial vagarosamente conduzir-se pras montanhas e descerem em curvas caudalosas,por entre pedregulhos e galhos secos,e teimar nas investidas das pedaladas e esquecer a última vez que o arenito amarelo polido fechou no enterro do pai com coroas,a pedra tapando o rosto e a volta sem um porquê de palavras,foi nesse mesmo dia que conheceu Giuliana,tão poucas linhas de conversas e uma ausência de séculos até o próximo encontro,Giuliana tinha 12 anos e usava uma jardineira verde,eu carregava uma gaita e um bloco de notas e detestava a minha gravata,fomos apresentados sem cerimônias e entre cochichos,e desde então nunca esqueci o rosto da menina de jardineira verde.
E se ela atravessasse insipidamente aquele matagal do jardim, e combinasse o seu vestidinho azul e flutuante,e cortasse as flores e chegasse até a porta e tocasse a campainha,do seu jeito séria,porque ela sempre aparentava feição séria,porém eterno sorrisos cobriam suas maçãs; e que depois gerenciasse uma sutil atenção e repousasse a firmeza dos olhares pela sala que respirava músicas,e somente o coração sabia o quanto eu precisava da Giuliana,decididamente.
Giuliana toca a campainha,eu escondo de novo o caderno pra vitrina,saberá quantos verões eu não irei procurá-lo novamente.


 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Blocos de concreto



Leve batida do gargalo no copo.A espuma cresce cobrindo todo o americano gorduroso e despenca plantando uma queda d'água assimétrica na mesa plástica vermelha.Algo de sonho natimorto talvez cobriu suas revisitações de protesto.Uma voz ganha ciceroneamento e mantém relação de respeito com seus anos imutáveis,anos burros,se misturando no lúpulo-compasso que o dedo arrisca desenho;na linha contada: indicador/médio.A angústia é uma nascente costumeira que se guarda como utensílios domésticos numa gaveta pérola.Na escada, observava uma senhora gorda noticiada de dores praguejando seu filho morto,era os conformes do destino,sequer palmilhou trinta anos nestes quatros cantos da morte pra saber o futuro.As construções surgiam e eram verbalmente guiadas pela militância do pastor vestido em rubro,blocos levantados sem assinatura de engenheiros abrigavam corpos e músculos atordoados na Capital, revelando o sonho escrito nos tijolos tortos dos morros,dos ingredientes do barro e cimento alheios ao contraponto da moral ou devoção de santos.

A rede suprapartidária de novos fiéis movimentava o latifúndio litúrgico,ganhando e contabilizando o bolso dos novos patrões emergentes.

Já foi benzido e iniciado por mãe Iná no Tambor de Mina.Abaô no meio da roda que ganhou guia e aconteceu alma!Acomete mais uma lembrança na suspeita do copo,ou será que foi a lágrima que ajudou?!Sob seu olhar evasivo distancia uma rodoviária suja,com poucos ônibus cinzas que contaminam praças e barraquinhas de vendedores que recebem dióxido de carbono da descarga diariamente,espera nervosamente a chegada de seu filho maranhense que nunca mais viu, vinte e cinco anos de espera,quando deixou a última conversa perdida na fonte do ribeirão seguindo pros afogados, e mais tarde; rodoviária.

Diz-se que o menino desde cedo cresceu aos costumes do avô Apolônio,que subia em palmiteiro no trançado de folhas de buriti, e ralava e prensava bem a mandioca pra fazer 'puba' pra mingau na boca da noite contida.Perto do amanhecer lavava o balaio aberto de vime, colhendo verdura e fruta madura no quintal,à tarde acabava a taipa de supapo misturando o barro arenoso com os pés, pro entramado de bambu verde que foi colhido no matagal da colina.

Apolônio procurava por Anhangá há tempos,e sempre chamava Carlinhos(o nego)-pra desbravar o mato de Viana com o canto reservado dos bigodinhos e cigarra-do-coqueiro, sob as macaúbas andadas que davam fartos coquinhos docinhos.Levava um punhado de tabaco no bolso caso necessitasse pleitear a embiara prometida com a visagem.Carlinhos já nessa época deixara de ser pequeno e conhecia a trilha como os antigos,metia o pé com cuidado cuidando das pernas pro nocivo não lhe pegar.

Os guarás deitavam vista de longe esperando hora desejável pros caranguejos-uçás,era hora morta de ataque,quando os crustáceos se escondiam no mangue, revolvendo-se no solo profundo da costa.

Nego sempre pensava no pai, quando maquinalmente colhia o último carinho ofertado na despedida do ônibus,último perfume borrifado do mercado de seu Moisés,as mãos contritas e suadas que agarravam a barra de ferro na subida da porta,um olhar demorado aguardando o futuro e um apanhado de placas apontando onde estava a cidade grande.

Ele recebia o seu interlocutor mais intencional por cartas semanais deixadas na caixa postal dos correios,contando sua aventura por viadutos e ruas,na tresloucada distância entre pessoas e preços e prata,nos bares que descansava o trabalho,nas manhãs nevoentas que a face arriscava o frio.Na sua mente,a única coisa que ainda contava presença,era a espera da república da democracia fazer agitação nos dias fechados de cólera.Contou sobre o pequeno quarto alugado e a bacia de alumínio pro rosto,duas velas vermelhas penduradas no criado mudo provençal,espelho arranhado na porta com vários lembretes,moringa de barro e uma rede velha em que se deita empurrando o pé na parede, pra adquirir catarses e sono.

Quando quer mulher procura a Doralice,que chama as meninas pra acabar com seu fogo.'Ali menina,lava tudo ali, na bacia!'A puta de primeira viagem não entende os ritos,e confusa,tenta assimiliar o que o moço barbudo quer.'Ali mulher!Eu não tenho o dia todo!Se lava ali,tá vendo?Na bacia à sua frente,na mesa baixa!'Conta ainda em folha pro filho, que o sexo é seu desabafo pras instabilidades reinantes,porque já não está tendo mais forças pra vencer,porque suas limitações definharam, e é somente no gozo, que encontra respostas de continuar tentando ser super-homem!

'Por que você coloca aquelas velas vermelhas acesas,em cima do criado mudo?Eu tenho medo de macumba!'

'Ora,largue de falar besteiras mulher!Tem nada de macumba em acender velas,elas foram feitas pra ofertar!' 'Minha mãe sempre falou que tem essa coisa de diferença de cores,eu não estou gostando,não quero essas velas perto de mim!' 'Se não está gostando,arrume suas coisas e deixa eu dormir!' Se calou então, desafiando medo na réstia da chama dançarina,que ficava em cima de uma latinha de chocolate.Puxou o braço moreno pra bem mais perto,sufocando parte da garganta e peito, e ficou assim na morada incômoda até dormir.

Nego chega às três da tarde de uma quarta-feira de novembro,o rosto não mudara nada de menino,apenas o corpo que cresceu como touro.Vestia camisa listrada e botas,carregava uma mala curvim xadrez com bordas douradas arredondadas.Abraçou longamente o velho até quase lhe partir as vértebras,lhe entregou a carta que Apolônio deixara antes de morrer,e ficou parado ali,por certo tempo imemorial;tentando compreender ou crer absorto naquilo tudo que chamava de:momentos.Nego lhe toca o ombro e diz que quer conhecer o bar que ele tanto falava,ele o observa com lágrimas presas, e passam a tarde como pai e filho,amanhã estariam levantando blocos e o que divizava curvas já não tem mais distância.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dois quartos e uma solidão










A voz que me guardava era uma bandeira súplice,uma passagem nova de ar pros pulmões,respirava,respirava e meu mundo percebia os labirintos e as romarias pedantes que perdi,de ter um isolamento solícito de saber levar as mãos à cabeça sempre e afastar-me de todos os meus rastros,de meus erros, daquilo que me esvaziava em cada realidade apresentada.








O que tinha era apenas um corpúsculo quedante, que nunca soube guardar bem as lembranças mais umbilicais,mais conhecidas.Eu era um passageiro intransigente pesquisando todas as fronteiras de minhas rodovias,das cercanias e fontes que divisavam padecimentos.Lucidez era o que eu queria voltar e incentivava.E o que eu pude montar nestas ausências,quantas casas me passaram pelo sol,e só eu sabia minha entendida fuga,meus meios de andanças ternas e regulantes que guardei.É que no final eu já havia encontrado as curvas certas,o poder e dever de senti-las requisitando tanto e tudo,e de antemão eu formava os moldes mais cobiçosos pra guiá-las;todas ali sacudindo trêmulas na agitação de seus braços longos em derredor.Afloravam com os imponentes galhos marrons um carinho de árvores para as cidades abertas que se perdiam em montes.Talvez isto me lembrasse um comportamento de ancião amigo,que entendeu a aurora da sua idade e os seus perigos e que podia reconhecer melhor o taciturno olhar reinando em outras pedrarias no barro úmido.O telefonema se combinou assim por horas,num resgate improvisado de conhecer todo o terraço e as limitadas condições do peitoril,de meus círculos de medo localizados dissecarem como num instante,seja em lágrimas e narinas soltas,por sobre meu peito de passagens e que protesta frio,rebate e protesta frio, e isto porque nem conto as pernas citadinas que não conhecem nada das direções.Porque minha madrugada insone me instaura outras consciências que nunca quis utilizar,mas seria bem sabido regrá-las em pastas.



Eu gosto tanto de deixar as lembranças bem escondidas e aparentes,registradas no número incandescente da temática dos beijos ou algo ou alguma coisa que importe à queima-roupa a vontade coberta de respostas; do coração sendo exigido pro combate à tarde na floresta.


A abstração me perseguiu a janta,o café morno que meus lábios souberam esquivar em sofridos goles sorvidos.Quando então a conversa exteriorizante ganha sala e eu fujo com meus livros,com meus jornais,com meus braços cruzados atingindo os céus sobre as árvores lá fora.Rememorando o automatismo de palavras de consolo.



E quantos beijos ainda não estão impregnados e pedem mais?Ah,esta descambada dos porquês,e que arranca um canteiro de conversas em tantas latitudes e nem quero somar aonde fica minha intensidade.De não conseguir achar minha própria força e olhar pro relógio esperando uma notícia de desculpas, de ficar tateando nervoso e apressado as coxas malgradas,massageando as panturrilhas secas,examinando os pés dedo a dedo num conflito de opereta de bocas sem vida.Os brios mais tarde tentam ganhar-me uma nova recolocação pras páginas,pro querer,e como eu poderia dizer não,pras obviedades e janeiro de respeitos?De um novo sino disparar pelos bancos e grama,rasgando os meus pântanos e limpando o meu marasmo aonde os olhos fingem em não arregalar?!



Eu não queria ser uma praça abandonada,não queria monologar por entre cortinas estreitas da minha varanda:e nestas sujeições aflitas,nestas circunstâncias irrompidas que derrubam várias melancolias, eu não acolhi o meu poço de horrores!É que quero ganhar novamente aquele teu sorriso mais escrito e de pecados,dos burburinhos que veemente particular te chamaria pra apelidá-los.Na sua última frase em que escondeu o choro e eu conheci muito bem.Eu queria examinar-me em cada centímetro dos poros,nos meus gritos mais brancos e desguarnecidos,sem estertores,sem entendimentos costumeiros,sem existir os castigos presentes e que crescem à minha volta.Eu respondo meu infenso debate violando sutilmente teus ouvidos pelo quarto, daquilo que travou minha língua morta,viola que morreu cordas e já nem arranha sustenidos.



Dedilha uma marca impiedosamente de música de espírito, que lhe chama muito bem pelo nome a se romper tamanha pelas miríades...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Agnes


Sim,o nome dela nem deveria importar, mas se chamava Agnes.Capítulo dirigente de coletar meus hábitos atenciosos,meu limbo espiritual,e psicanálises à flor da pele.
Agnes ficou em mim como a natureza que reflito,e quanto de seu cheiro atravessou minhas linhas de sensações.Seus olhos eram bem amendoados e chispantes,de um dourado escuro perceptível,parecendo esconder um cômodo passado racional nas retinas.Que até já havia consumido ou tentado esquecer os seus erros em outras e tantas viagens, mas acabou logo desistindo, porque tudo era um quê repentino e ficou incompreensível,de acolher rapidamente algo, entender algo,saber tudo;porque tudo no fim era em vão.
Um colar branco e longo se permitia até o decote negro,traduzindo e crescendo o célebre desejo nas minhas observações,e se possível dizer em maiores detalhes, justificavam muito bem os seios que se guardavam na roupa.
Rodava seus anéis nas pequeninas mãos com grande gracejo e calmaria,após isso,de saber dominar calada a soma e seriedade de sua vida;ia andando pela casa,admirando as pequenas peças que se abrigavam na estante, nos livros que eu sempre mudava de posição.
Como num rompante mágico me virava o rosto com grande sorriso,depois outro virar de rosto com uma curiosidade sugerida,e ela mal sabia;mais este meu coração já latejava tão forte,vivia de origens desconexas,era qualquer dizer de frases ou conversas retratantes na madrugada,que tudo ali me serviria de matéria pra ganhar seus caprichos-(sim, o pequeno músculo que bombeia reconhece e sabe)-queria interagir seu rosto de passagens e entendimentos e desejos, e eu contava isso aos poucos,num sentido especial,sem coincidências,no lado sedento e indiferente de mim na cama.
E quantas noites a insônia já havia me perseguido,e ficava numa angústia de horas a contemplar seu rosto como ponte para o meu sono.Eu desmentia todas as minhas camadas de ansiedade pro destino;pros hinos,porque o que contava em questão eram seus braços,seus instantes,nos meus desvarios visitantes que agradava.
Porque haveria de tudo em agir assim,um senhor capricho crescendo e tramando as essências e que já não dava mais pra esconder nada,desinibir o cinismo apertado que me punha em risco.Naquele momento eu não sabia explicar bem o que se passava,só sei que eu era apenas uma pessoa presa aos seus encantamentos,de tentar eliminar a absoluta fusão da alma,de clarear meus campos de perguntas,de libertar-me daquela redoma o qual me fazia escudo.
E ela vinha com sua calma e presença,de tocar-me à vontade com suas finas mãos ,e no meio módico das despreocupações,pedia pra passar hidratante corporal nas suas costas,num tom risonho e às pressas'Bem devagar,tá?' 'O que é isso?' 'É strawberries and Champagne!' Então eu me erguia de seu pequeno travesseiro rosa e ia conhecendo os seus ombros desnudos,vasculhando a ponta dos dedos sobre sua nuca suada,enquanto que sua face baixava entre os cabelos e se permitia ao descanso.
'Espere!' levantou-se breve e sem tirar-me o olhar,despiu-se da longa camisola negra que escondia bem a existência madura.
Voltou aos poucos com seu sorriso de: acusações, acontecimentos e interesses, ficou a imaginar...Coisa marota escancarando o espírito.Encarou-me com os amendoados vivos;com a fronte desesperada na minha direção.Vertigens,encanto natural de criança,instantes...Joelho sobre joelho foi investindo na cama, até chegar bem perto,manifestando vocabulários neutros,vocabulários aflitos.
'Agora tente esse aqui!É frapê de limão!'E me passou o outro hidratante, ajeitando o cabelo marrom até tomar forma de um pequeno rabo de cavalo,enquanto que eu acenava afirmativamente com a cabeça.Abracei suas panturilhas(duas colunas de certezas)-os pés tão suaves,as nádegas ao acaso brilhosas,e ela se debatia,comprimia às intempéries do prazer com grande lucidez.
'Your song' tocava ao fundo quando pegou-me pelo braço e como numa pequena sinfonia disse que me queria bem dentro dela,de não dizer nada,só estender-me convulso na carne,na inclinação de sexo e fronteiras de êxtases,de morder-lhe o flanco,maltratar suas costas com os marfíneos quentes.
Agnes ultrapassava sempre as minhas respostas,porque tinha propósito máximo e desafios,Agnes consumia o meu composto de criança servil e não dormia sem o seu travesseiro rosa.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Entendimentos


Não,não tinha nenhum ressentimento apossando-lhe a mente e tampouco expirava os pulmões à primeira menção das coisas,as suas memórias eram fiscalizações deformadas de poucos amores abstraídos pela vida.Acordava aos poucos,esticando os firmes braços pro céu e com os olhos ainda inchados, virava a cabeça pra direita e o que existia era apenas um porta-retratos vazio.
Havia esquecido filhos,dizeres,jornais,cartas.Um verdadeiro e absoluto mestre da solidão.Ou quem saiba ainda estivesse esperando àquela melhor impressão de floreios lhe surgir um dia,mais que ainda não havia aparecido,como anúncio de emprego no domingo.

Ele Pensava nisso enquanto jogava sozinho o cavalo no tabuleiro, e foi caminhando seriamente sua existência até a varanda ventilada, obedecendo os seus miúdos olhos claros pro sexto andar.
Havia estado naquela cidade por mais de trinta anos,sempre com sua atenção tímida de caminhar sozinho pelo centro,conhecendo cada centímetro de pedra levantada dos concretos, suas sancas de gesso retilíneas defrontando as largas paredes alvas das sacadas. Sabia conferir bem cada detalhe dos emoldurados de frisos dourados e pequenos,os arcos bem redondos que ganhavam extrema leveza na tarde.Respondia a conhecidos como um peregrino distante,com acenares curtos e rápidos, marcando uma suposta resposta de amizades.O chapéu lhe caía bem sob a careca rosácea,enterrando-se perfeitamente até o limite de suas sobrancelhas semicerradas.Vez ou outra retirava da cabeça para limpar a testa gordurenta com um lençinho roxo que ficava dobrado na lapela do paletó.Morava num prédio moderníssimo e quase não via razões de sair dele,gostava de Goethe mas não conseguira/tivera tempo de vender sua alma ao diabo!Era difícil objetar as profundezas de sua alma! Por fim e sem maiores cuidados de entender todos estes seus fracassos, aceitou o empreguismo inerente de ser apenas um matemático sem números.Houve certos dias em que cenas distraídas de sua íris ganhavam passado, um conjunto ingênuo de ter treze anos e interpretar muito bem o barulho dos trilhos do metrô em Montparnasse, onde ligeiramente dormitava quando voltava da escola. E ao chegar em casa,deixando os grossos livros sobre a mesa,contentava-se com a música existencial de'Mood indigo' e outras de Duke Ellington que rolava na vitrola quase todas os dias.
Ali enfiado entre dois travesseiros de pena brancos,confrontaria o seu pai cansado que voltava de alguma cervejaria.E se alimentava das pequenas impressões que o jazz acontecia.Ora despertava dentro dele esta escrita agonizante da saudade,parte de um sentimento que deixou e que vinha agora com um sentido confuso e especial,um gosto de imaginar como seus filhos estariam...Que fora tão desfavorável como pai...A música vem chegando com uma naturalidade bem oferecida,conversa a gravidade do tempo presente,e seu pai ainda permanece ali;dormindo os mais lindos sonhos no reinado de uma cama.Já era mais do que tempo para reformular sua cabeça,de encontrar-se publicamente com a senhora do sexto andar e lhe lançar um sorriso melancólico de trinta anos,trinta anos que divisou e impacientou a fala.Toma um banho,passa colônia francesa no corpo,se olha no espelho demoradamente,penteia os finos cabelos com certo ar de confiança,molha o rosto paradoxal e pesado,fica tentando se entender na linha incompreensível do ser,assobia em notas altas na saída de casa.
Se desloca com cem mil frases até o outro prédio.O porteiro pergunta pelo nome,ele responde: nome e sobrenome,faz-se então uma breve pausa e a porta elétrica se abre.Toma o elevador,a chave tetra gira duas vezes na porta,uma diminuta senhora perplexa e emocionada abre.Ele fica naquela manobra condenável de pensar o que dizer,convida-se pra entrar.Amanhã, seu pequeno porta-retratos prateado à altura da cômoda,terá um rosto novo pra viver entendimentos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Pendências


Não,não sei se você vai querer ficar e depois atacar de megalômano e baixar os olhos enquanto mata mais uma vez a garganta com vodka,e vai deixar-me ajeitar os cabelos com a escova,e jogar Robert Schumann bem alto e bradar pelos quartos de que não precisa de analista e sentar na cadeira queimando seu Jose Piedras confirmando assim a sua impaciência.Eu já não sou mais aquela mesma menininha que você conheceu,sabe?Que ficava par oportunité de tudo que você controlava e aderia devagarinho,e que nunca deixei de odiar esta tua calça larga que teima em usar sempre nos domingos.Tenho alguns livros,um caderno de notas e um fichário rosa, pra mim isto é mais do que necessário pra passar minhas tardes.Porque sei que vendeu a televisão pro vizinho dizendo que aos poucos se livraria de todas nossas coisas.E logo vai chegando esta madrugada que tanto espero,rompendo claramente sua projeção pelo vidro do quarto e eu querendo esvoaçar loucamente estes meus cabelos negros pela praia vermelha,e mais tarde um pouco quem saiba;molhar os pés atabalhoados nas águas gélidas.Você ainda não percebeu nada meu querido,mas tem atravessado uma avenida de erros e medos na tua ridícula máscara.Eu não tenho mais tempo pra refletir sobre isso e nem quero, nem com estes teus cabelos brancos arrepiadinhos querendo um cafuné precipitado.Ah,mas porque você deixou-me assim neste estado querendo mais cigarros,de perder-me em qualquer bloco de rua e não me siga nas minhas aventuras.Ainda vai ficar com as magras mãos de veias saltadas azuis,tamborilando sobre a mesa da sala tentando entender o meu grito,ou porque Júpiter em câncer é assim mesmo, tem uma certa compaixão controlada mas que não dura tanto.Que eu nunca mais aceitarei esta mise en scène diária tua.Você rasgou meu único diário conhecido tentando acordar alguma atenção de ciúmes,e com ele todas as lembranças metálicas que preservei,talvez nos encontremos no elevador pantográfico,você tão inseguro e eu com meu mais novo perfume.Vai querer ficar por trás da janela tão inválido,alcançar alguma nuvem numa manipulação de despedida tortuosa.Porque eu estou sem meus avisos e eu faço os meus dias e você não observa a sua barba por séculos.Os meus saltos me empurram pra beleza e fico horas me olhando no espelho,que eu entendo bem da haute couture e já comprei verduras e fiz uma salada com bastante azeite e limão,e sei que vai descer novamente e procurar o Doca e pedir uma porção de:arroz,feijão,alguma carne e legumes, linguiça calabresa,couve,batatas e farofa,vai comprar o jornal esportivo e assistir o jogo no telão.Vai pedir duas doses de xiboquinha e rir sozinho batendo forte na mesa do balcão,e eu serei de outros enquanto não se vende este apartamento.Fique com sua prisão esboçada na carne e suor,no seu tabaco que peregrina cortinas aflitantes,porque eu compreendo muito bem estes meus úmidos olhos que vagam entre os orgasmos,no meu dizer acordada às três da madrugada revelando estranhas confissões e depois vir o alimento do sono.De acordar e abrir a geladeira beber uma água gelada e comer alguns frios que estão na tábua,escrever uma nota na porta e pegar um táxi,de aprender que a desilusão agora tem cheiro velho e a lascívia me dá outros contos pro caderno,e eu não estou mais insegura,e eu não estou mais insegura,jamais meu bem...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Prato à minuta

Em certo momento deixei o carro cinza ali; bem perto do meio-fio no centro da cidade, e dividida por vários postes carcomidos e mal iluminados. O motor ainda ficaria ligado até o meu retorno,e eu teria que ser bem rápido,saltar como um gato e entregar o bilhete na portaria com grande fachada azul.Era um dia destes que chovia fortíssimo e logo mais tarde eu ficaria totalmente encharcado e emburrado com os contratempos dos pingos, o chapéu se perderia pros ventos estranhando a ideia de ser independente,desviando-se de prédios corpulentos e janelas degradês.

Na correria atropelava panfleteiros com seus videntes charlatões,mendigos pedintes com grande clemência condenatória,senhoras com seus redingotes bem vistos,cartazes e cartazes de políticos metidos em seus ternos italianos,transeuntes protegidos sobre as marquises largas,restaurantes com seus caríssimos clientes cheirando a sonetos.

Não tinha ideia do que viria depois dali,depois que o cheiro abafado da celulose do envelope saísse de minhas mãos e ganhasse outra,só saberia que uma lembrança ficaria aposentada na estante da sala e mais tarde pediria um prato à minuta...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Qualquer mensagem, embora não houvesse mais possibilidades


"A essência da natureza" por Douglas Okada
Exposição na assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Museu de Arte do Parlamento de São Paulo

No
ite,23 de março de 1975,chove bastante neste verão.Os pingos que marcam o espelho d'água na calçada em pedra de cantaria,parecem moldar uma outra pessoa,um outro simbolismo coerente de mim.Àquele meu rosto que explode em círculos circuncêntricos perfeitos,na pequena poça marrom ovalada,reinando sobre os sacos de lixos orgânicos não sou eu, é um ser humano torto;mais enrugado e sem interesse que engaveta suas ruínas e pernas no apanhado de concreto.
Os meus pés decidem descansar sobre uma cadeira de madeira vermelha.No assento percebo pequenas lascas arrancadas com a ponta de um instrumento rudimentar.Eu não vejo nada em especial por esta madrugada calculista em que os bastidores dos olhos não velam nova histórias, não acham colinas gêmeas, não evidenciam aves de rapina assassinas sobrevoando as dunas temporãs, nem mesmo massa de pessoas sem assunto, conferindo seu dinheiro inseguro e aquela habitual conversa sobre o relacionamento.
Sim,neste provável labirinto eu aposentei o celular por dois dias,não que eu não quisesse entender certas ligações ou escutar a série de conselhos naturais que nos firmam na linha e questão de respeito/tempo,nada disso. Queria apenas adiantar e capturar meus elementos mais simples,os vestígios dos elos mais escondidos,certas coisas tácticas que a natureza suplica e não imaginamos porque a relação de fios e plasma é passaporte pra ignorância.A tecnologia muitas vezes roubou à nossa assistência de criatividades.A tecnologia nos deixa tão burros.E é por isso que o notebook vai cumprir com o mesmo papel,ficará também na mala do carro até segunda ordem.
A natureza me chama com uma intimidade decisiva,tenho vontade apenas de mar.
Foram estes mesmos tais dias em que o Old Parr serviu pra curar determinadas feridas,um xeque-mate no centro do meu coração.Todo mundo deve estar desesperado achando que algo aconteceu comigo e eu:(nem te ligo).Egoísmo da minha parte?Quem saiba!Talvez!Só não queria falar com ninguém,que respeitassem isso!
Ao menos eu deixei uma mensagem, como estes grandes suicidas clássicos que assim se perfazem:nada criticando a religiosidade ou as autoridades por seus temores, nada disso.Ali deve apenas existir uma linha clara,uma leve coerência ou vaga licença qualquer pros casos comuns.Ou nem isso;seria como os versos finais de Bandeira''
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.''
É engraçado e até demasiado tarde perguntar tanta coisa,bater com força na porta que emperrou e hoje não faço mais. Mateus estaria de folga esta tarde,ele conhece este meu amparo negativo,e sabe muito bem onde encontrar-me. Dali há quatro dias eu casaria e tinha que ponderar sobre todos aqueles motivos,mas já não queria mais casar-me,já não queria mais aquela companhia e suas declarações brancas.
Os meu pés são mapas de segurança, eles é que me guiam por :restaurantes, cidades mortas, bares mesquinhos que não servem a última dose,drogas possibilitadas,bandidos conspirativos,putas cheirosas,praças com bustos sem nome,janelas sem flores,pessoas mal informadas querendo conversar política.
Dobrei a calça azul,joguei os sapatos ao longe, agora eles decoram as pedras pontiagudas do morro.Meus pés sabiam e já diziam,por aquele corredor de igreja eu jamais passaria.Mas fui entender isso tarde demais.É que antes não havia nada sobrescrito
,nada que explicasse esta desarrumação de juízo.
O cheiro que provavelmente atravessa o pequeno beco direito e que me assusta,tem cheiro de bolo de mármore; minha mãe sempre preparava esse bolo quando eu ia pra escola.Eu tinha doze anos e assistia Gato Félix,e nunca houve combinação melhor do que esta;bolo de mármore e café.
Todo mundo se reunia na grande mesa forrada com toalha xadrez, Flor naqueles tempos adorava amarrar suas tranças em firmes e grossos cipós loiros, e bradava em bom tom que já estava na mesa.Cynthia sempre gostava do bolo também.Eu conheci a Cynthia num concurso de desenho,era pra quem melhor desenhasse o Félix.Acabei aceitando o segundo lugar com os traços do bichano,e ela tirou em primeiro.Nossos pais eram vizinhos,e meu pai gostava de fazer novas amizades com churrasco no domingo.Já Dona Greta,fazia teatrinho de fantoches com sua filha e os amiguinhos preenchiam toda a sala.Aos poucos a família (dela/minha) foram se conhecendo melhor.Sim meu caro leitor;Cynthia é minha noiva,sei que devia ter feito comentários,confirmar algumas coisas e votos na sala de jantar;qualquer coisa que ela melhor me exigisse,mas nada foi feito.
Ainda posso sentir a sua moradia de pernas no convite da cama,ela que agora com toda certeza do mundo deve estar me reprovando por horas!Com aqueles cabelos presos sempre à nuca,ela sempre gostou dos cabelos assim!E depois não conversaria muita coisa ao tirar os sapatos, apenas lentamente deitaria e surpreenderia minhas costas informando os beijos pessoais,que havia chegado em casa e evidentemente não ia querer dormir naquele grande espaço de tempo!'Você nunca cresceu mesmo né, seu grande idiota,sabe como ficou todo mundo?!O meu pai diversas vezes fôra ao IML,e eu gastei o dedo ininterruptamente apertando o send(vaso voando sem hesitar confirmando a tarefa de acertar-me a cara)...' E o Mateus que não chega,que tamanha demora é essa e ele sabe que eu estou aqui,é só pensar um pouco,reflita!A pintura de Deus carimba a sua identidade nos meus cristalinos,e eu posso respeitar com tamanha maestria suas tantas possibilidades
!Está bem ali,originando os seus trabalhos com pincéis,naquele azul vivo que se esconde por detrás das rochas, diante das procelas rebentantes que acorda o limiar das margens,e eu nos términos contemplativos fechando a concha da mão para escutar melhor as ondas.
Mais outros copos me chamarão nestes campos argilosos que friamente não quero ordens,e meramente o covarde se afogará em Thomas Parr.
Queria ser um pouco como minha mãe,nos seus trinta anos de relacionamento sempre viveu bem,gostava de bordar e a casa era um significado de quadros.Deixou-me apenas um relógio e um cordão azul que carrego no pescoço.Retiro uma pequena foto da carteira,ali com cortes retangulares bem grosseiros de tesoura de escola, me apresenta uma Cynthia com aparelho e um bonequinho na mão.A seriedade então me refreia tudo,até mesmo na beleza de Deus.Por que não disse nada?Eu não necessito de tempo para estudar meus papéis,nem sou personagem material que recusa trabalhos!
Vejo Mateus à distância,ao lado dele está Cynthia,Mateus não entendeu nada mesmo!


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ensaios dos cotidiano


Adentra o salão respirando os ares da livraria,não existe nenhuma pressa nesta mulher que embala os saltos negros habilmente.Vem com passadas de pernas reservadas,panturrilhas poderosas que montam a escala dos minutos.E minha importância já se vê patriota,declara a grande povoação de descobertas,de teorias, de acertar àquela linha de curvas e comitivas de andanças.Obtemperar a construção do desejo, tudo escondido por detrás dum livro rosáceo que apalpo sem comentar trechos.
Ela avança uma coluna jônica e mais outra,faz-me dobrar todo o juízo pro leste,na divisão das prateleiras azuis de fotografia.
E fica assim com sua procura mais que paciente,ressalvando a fina postura egoísta dos ombros,ganhando os nomes em dourado no dedo indicador, nos caprichos das capas e dos volumes,em autores,em linhas,acolhendo alheia os olhares num vasto inquérito,na verdadeira cadeia de saudades,e quando se vê; já está revisitando seus velhos amigos.
Quem me dera conseguir atingir os trinta passos para o território desconhecido e roubar a bandeira bem escondida debaixo das pedras.Eu quero lançar os dados,seis?Beleza,avanço seis.
Me perpasso pro canto de Noel,e já sei o que ele me diria:"
Linda pequena,Pequena que tens a cor morena,Tu não tens pena de mim,Que vivo tonto com o teu olhar,Linda criança,Tu não me sais da lembrança,Meu coração não se cansa,De sempre e sempre te amar..."Jogue os dados.Perca sua vez.Não acredito.Mais quem é aquele?Ei,Vai embora! Tire suas mãos do ombro dela,não dê este sorriso mais debochado.É algum amigo somente e está conversando e nada mais,daqui a pouco ele vai embora.Ah!olha lá o que eu estou dizendo?Apoderou-se de dois livros e já está saindo,isso,faça isso,vá pra direção do balcão que agora você me deixa mais aliviado.
Jogue os dados.Avance três passos.Me deparo com a sessão de culinária.Dali posso arriscar sua alma enérgica,cercada por uma fina voz que examina os recortes negros e que termina num queixo triangular pequeno. E a boca coberta por um pequeno brilho, parece revelar uma longa comitiva sentenciosa,quase me tirando todo o conforto,tirando meu ponto de lição pra outra prateleira.
Eu vou chegar ali pedindo informações, ela com certeza me ajudará.Me direciono para sua seção com as mãos no bolso e a fronte um pouco caída,escutando seus estudos numa confusão sentimental que me declara leves impulsos.Pergunto:
'An,poderia me orientar em algo?Eu não conheço quase nada de fotografia.'Ela reina num sorriso com uma estatística quase de poesia. 'Eu também não conheço muita coisa,sou apenas uma curiosa' Descubro então mais tarde que ela não é fotógrafa como achava,mas sim uma escultora. E ela descobre que eu não sou chef,mas sim jornalista.No domingo tiraríamos fotos no jardim botânico...


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O velho boticário

(Ah!Não sei o porquê,mas leiam depois de beberem dois vinhos e pensarem na pessoa do Modigliani e o quanto ele representou pras cores...Ele foi muito mais abrangente do que este pintor chatíssimo Picasso!)

Havia acabado de mudar-me e todos sabem o critério e a conversa da mudança,pode ser rápida ou demorada;depende da pronúncia e classificação de seu veredicto.O mais certo de tudo é que sempre deixamos algo pra trás no desequilíbrio da pressa,ou ficamos surpresos com a quantidade de papéis que não deveriam mais existir por ali.Cheguei na nova casa pelas duas da tarde e com grande agitação pública,o caminhão lá fora começava a retirar os móveis arranhados e a fumaça preta do cano da descarga preenchia todo quarteirão.Eu chegava a anotar algumas coisas rapidamente e olhava o relógio como se o habitual não existisse,teria que encher aquele espaço de forma instintiva, abarrotar toda a sala e quarto de coisas,ganhar vida e cores pelos corredores.
O arrasamento da morte de meu tio ainda emergia alguns fantasmas e cogitações o qual não conseguia apagar
da memória de forma alguma, e a cômoda mal alumiada e reta feita em art nouveau onde minha tia se pintava, foi logo prontamente vendida;após tal feito,pude então domesticar o sossêgo voluntário.
Lembro-me que eu tinha oito anos e pouca fala,e havia certa inscrição no madeiro em que eu passeava os dedos com fina rigidez,eram frases bem redondas e deitadas no marrom sobre a queda da Bastilha.Ela foi primeiro que meu tio cantando La Marseillaise,enquanto que ele se despegou do céu e de Deus.Conheceu a Tiquira por vinte anos e nunca mais renegou um copo, e quando já beirava os seus setenta anos de idade, bateu a mão robusta sobre a mesa e disse que queria conhecer a Amazônia e seus pássaros e viraria Boticário.
No início eu achei aquilo tudo uma tremenda loucura, pra mais tarde respeitar a sua prosa científica amadora.Naquele mesmo período acontecido eu despejei meu turbilhão de impaciências em muitos, comprei os sucessos e insucessos reprováveis do velho homem, vivi sem nenhum ato próprio,sem nenhuma teoria nova e a casa amarela sentia a comiseração de meus protestos incharem sobre as veias.
Depois de quatro anos saudosos escreveu uma carta pra mim inquieto,contando que havia visto Mapinguary e que amava as ariranhas e as Samaúmas, e aprendera a fazer tapiri de duas águas com os Waimiri-Atroari,que tinha ouvido garrincha-trovão e até o raro uirapuru no meio da tarde. Também deixou dentro do envelope uma espécie de segunda carta,uma fórmula talvez; mas nada me dizia aonde estava e como estava. Meu tio só voltou mesmo pra casa quando completou oitenta e oito anos de idade precisamente. Conseguira cumprir com o seu triunfo de espírito cientificista, boticário dos índios,agora podia descansar sem maiores questionamentos.
Esquálido,com uma barba profética e uma demanda de vasilhames empilhadas num baú com selos,assim voltava a passos curtos.Mais tarde resolveu transformar a sala toda numa imensa boticaria ambulante.
Era um caso sério negociar com o barbudo,eu odiava ver tudo aquilo ali espremido na pequena estante branca.Pedir pra que ele guardasse suas pesquisas em outro lugar,seria o mesmo que um mouro discutir com um cruzado empunhando uma espada na altura do peito.Fora a zombaria dos amigos que sempre quando chegavam,perguntavam :Vai montar uma farmácia?Ou quem é o Robson Crusoé?!
No dia 22 de maio de 1995 ao findar o almoço,sentiu-se muito mal,redimiu-se com o altíssimo,abraçou o retrato da pessoa que mais amou na vida e morreu sorrindo.
Nada mais me concentrava na casa,nada.As minhas várias perguntas,a velha cadeira vazia que por diversos meses desenterrou os comentários mais irônicos de Robson Crusoé,nem mesmo os seus escritos presos no velho baú,nada e nada dava crédito pro ânimo.
Eu tinha que sair dali,já estava decidido
'Libertas Quae Sera Tamen.'
A nova casa tinha um roxo que talvez ele fosse adorar,com janelas bay window e varanda bem larga,própria pra plantar:romãzeiras,amores perfeitos,petúnias,jasmins do cabo,balsaminas.O piso de tábuas com verniz ainda mostrava bom acabamento,e o quarto tinha armário embutido e era bem arejado.Paguei a mudança,e abri o velho baú pesado,várias e várias cartas amarelecidas.Do tempo em que os dois ainda namoravam 'Me espere na avenida central,em frente ao Palácio Monroe,tenho que ser rápida pois o meu pai já está desconfiando de nosso romance...